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Ano 3 | Nº 28 | Julho/agosto de 2009
Focus
Monteiro Lobato: a imortal obra de um rebelde | Alexandre Marcos Lourenço Barbosa
   O Vale do Paraíba é profuso em talentos literários. Nele nasceram expressivos homens de letras que se somam aos grandes vultos da literatura nacional. Quatro deles obtiveram o reconhecimento da Academia Brasileira de Letras.

Francisco Ignácio Marcondes Homem de Mello, pindamonhangabense e Barão do Império por Pedro II a partir de 1877, inaugura a lista dos imortais nascidos na região. Cassiano Ricardo, de São José dos Campos, é o segundo nome a figurar na galeria de notáveis literatos que tiveram como berço o Vale do Paraíba paulista. Os mais recentes membros da Academia são o jurista e poeta Miguel Reale, de São Bento do Sapucaí, e o jornalista Francisco de Assis Barbosa, representante da “Atenas do Vale”.

Monteiro Lobato, o quinto nome neste rol, é um caso, senão singular, ao menos raro, a figurar na história da Academia Brasileira de Letras, pois que indicado, em 1944, por Cassiano Ricardo e Menotti Del Picchia, para dela se tornar um membro efetivo, eis que recusa o fardão.

Reticente às Academias, este taubateano nascido em 18 de abril de 1882, por diversas e frequentes vezes, já havia manifestado a sua exposição de motivos.

Com Godofredo Rangel, amigo com o qual troca correspondências por mais de quarenta anos, confidencia: "Não sei, Rangel. Tenho medo de Academias, coisa algemante, e não possuo o feitio acadêmico”.

Definitivamente, o apreço de Lobato pela liberdade e o seu espírito realizador neutralizavam o efeito sedutor daquilo que ele próprio denominava “gaiolinha dourada”.
Em carta a Jaime Adour da Câmara seu remate ao assunto é inconteste:

"Sim, talvez tenha razão no caso do ‘conto’ da Academia [conto-do-vigário, um embuste a fim de enganar uma vítima]. Mas como estou muito velho para cair em contos, resolvi o caso com um bom coice, como verás nos jornais de hoje – se a censura não me tapar a boca. Recusei e esculhambei. Quando eu quis a Academia, ela não me quis; agora invertem-se os papéis. [...]

Naquela entrevista da Revista da Semana, eu disse com sinceridade o que pensava da Academia e do imortalismo. Lata e lata vazia. Se depois daquilo me indicaram foram burros e merecedores do coice. Cansei-me de declarar o meu desprezo pela Academia Brasileira de Letras, em entrevistas, artigos e cartas. Não me acreditaram. Pensaram que era despeito e que, em havendo possibilidades de entrar lá, eu engoliria o que disse e me atiraria ao bofe como esses pobres-diabos que fazem as maiores indecências para pegar o jeton vitalício [...]

Aquela Academia é o maior ninho de intrigalha do mundo. Houve tanta coisa neste meu período de entra/não entra que fiquei avaliando que inferno é a vida dos desgraçados mortais que se imortalizam com aspas. Um conselho te dou: nunca pense em entrar para lá...” (In: Jorge, Fernando. A Academia do Fardão e da Confusão. A Academia Brasileira de Letras e os seus “imortais” mortais. São Paulo, Geração Editorial, 1999, pp. 247-251)

Ao amargor de ser preterido duas vezes, após ter ensaiado entrar para a Academia, junta-se a indignação por ver a Casa de Machado de Assis aceder à indicação de Getúlio Vargas, mesmo sem qualquer mérito literário, para ser o terceiro ocupante da cadeira 37, o que Lobato considerava um insulto a todos os intelectuais brasileiros.

Ainda hoje, a Academia é contida ao referir-se a Vargas. A biografia publicada no site oficial da instituição registra com notória reserva o seu “talento” literário: “A obra literária do presidente compreendia apenas alguns discursos de natureza política em sua maior parte, que vieram a ser reunidos, muitos sem autoria definida, em A Nova Política do Brasil.”

No seu discurso de posse, Getúlio foi confesso de suas limitações:

A atividade intelectual é para mim uma imposição da vida política, que exige de quem a ela se consagra a obrigação de comunicar-se com o público com precisão e clareza, explicando idéias e problemas de governo, esforçando-se para fazer-se ouvir e compreender.
Não sou e nunca pretendi ser um escritor de ofício, um cultor das belas-artes...” (In: www.academia.org.br )
Era inconcebível para Lobato ver alguém com tal perfil na ABL. Mais ainda era tornar-se confrade de alguém que, em 1936, considerou subversivo e mandou recolher todos os exemplares do livro “O Escândalo do Petróleo”, escrito por ocasião de sua entrada na Academia Paulista de Letras (APL), de alguém que determinou sua prisão por seis meses, em 1941, em razão de não aceitar os termos de uma carta na qual expunha suas críticas à política de minérios no Brasil, de alguém que diante do dissenso só reconhecia o arbítrio totalitário de um poder expropriado do povo. Para o neto do Barão de Tremembé só havia uma possibilidade plausível à sua entrada na Academia: a saída do ditador.

Edgard Cavalheiro, um dos principais biógrafos do autor de Urupês, em tom de rechaço diz do silêncio da Academia diante do episódio da prisão injusta de Lobato: “Mensagem alguma de solidariedade ao intelectual encarcerado parte do nobre sodalício. Ao contrário. A preocupação máxima dos imortais é a reforma do regimento, a fim de facilitar a entrada do ditador.” (Edgard Cavalheiro, Monteiro Lobato: vida e obra, Companhia Editora Nacional, 1955, tomo 2)

A dignidade de Lobato fê-lo personagem irreconciliável com aquilo que, a seu ver, estampava a subserviência dos acadêmicos aos assédios do poder. Mas seu rigor e severidade não se ativeram às lides com a Academia Brasileira de Letras.

Mereceram, entre outros, o peso de sua dura pena, Bernardo Guimarães e Anita Malfatti.Sobre a obra de Bernardo Guimarães, anota Alfredo Bosi, critica os clichês paisagísticos tingindo de artificialismo suas invariáveis e insossas descrições:


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“Lê-lo é ir para o mato, para a roça, mas uma roça adjetivada por menina do Sião, onde os prados são amenos, os vergéis floridos, os rios caudalosos, as matas viridentes, os píncaros altíssimos, os sabiás sonorosos, as rolinhas meigas. Bernardo descreve a natureza como um cego que ouvisse cantar e reproduzisse as paisagens com os qualificativos surrados do mau contador. Não existe nele o vinco enérgico da impressão pessoal. Vinte vergéis que descreva são vinte perfeitas e invariáveis amenidades. Nossas desajeitadíssimas caipiras são sempre lindas morenas cor de jambo. Bernardo falsifica o nosso mato”. (Bosi, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. p. 242)

Já as mordazes críticas aos “ismos” europeus representados por Anita Malfatti em exposição de 1917 valeram-lhe o revide premeditado dos modernistas. O obituário de Lobato, escrito por Mário de Andrade e publicado em 13 de maio de 1926, no jornal carioca A manhã, nada tem de casual. Enio Passiani considera esta manifestação tardia resultante do fato de que até então os modernistas consideravam Lobato um oponente difícil de abater e vê na disputa pelo campo literário no Brasil o motivo maior do embate entre Monteiro Lobato e os Modernistas:

“Matar Lobato, para os modernistas seu pior inimigo, significava matar uma época, uma geração de literatos que devia ser deixada para trás, uma vez que estavam ligados a antigos cânones que representavam estilos literários ultrapassados, que traduziam o academicismo no campo das letras, o conservadorismo intelectual, isto é, o linguajar excessivamente empolado, artificial, que não deixava ver, traduzir e compreender o (suposto) Brasil real. Os modernistas fizeram de Lobato o símbolo maior de um passado que devia ser enterrado; portanto, matá-lo (e junto com ele toda uma geração de escritores) significava declarar, finalmente, a vitória modernista. [...]

O que estava em jogo era uma acirrada disputa, desde 1917, por bens simbólicos: o reconhecimento, o prestígio e a consagração definitiva. Tanto os modernistas quanto Monteiro Lobato pretendiam, ainda que inconscientemente, a hegemonia no campo literário. (Passiani, Enio. Na trilha do Jeca: Monteiro Lobato e a formação do campo literário no Brasil. FFLCH-USP, dissertação de mestrado, 2001, p. 36-7)

E mais adiante segue dizendo da tentativa historicamente bem sucedida dos modernistas de lançar ao limbo e ao esquecimento os literatos da geração anterior, afinal coube aos seus protagonistas e simpatizantes a escrita da história:

“Ao contrário do que a história escrita pela pena modernista mostra, o período anterior também constituiu um momento de ruptura com os moldes poéticos preconizados pela estética art nouveau e representou a primeira tentativa de se conhecer o país a fundo por meio de uma nova linguagem literária, i.e., a narrativa literária, pela primeira vez na história da literatura brasileira, se mostrou explicitamente como uma ferramenta para o conhecimento das condições ‘reais’ do país. [...]

É evidente que o movimento modernista quer negar sua herança, apagar o fato de que tal movimento é parte de um processo que estava em gestação desde, provavelmente, o romantismo”. (pp. 44-8)

Mas Monteiro Lobato é, entretanto, muito mais que um controverso literato aplicado à prosa regionalista (Urupês - 1918, Cidades Mortas – 1919, Negrinha - 1920), às obras de ficção (O choque das raças ou O presidente negro – 1926) e à literatura infantil que o consagraria no mercado editorial. É um arauto da modernidade e do nacionalismo voltado à denúncia social de nossas deformidades políticas e ao “progresso social e mental de nossa gente” (Bosi, p. 242). Um espírito irrequieto a ocupar-se de questões fundamentais com a pertinácia que estas exigem.

A luta pelo petróleo e pela siderurgia nacional é o emblema maior de seu envolvimento com as questões políticas que afligiam a sociedade de seu tempo. Para as mazelas causadas pela nossa condição miserável havia, a seu ver, um antídoto eficiente e possível: o desenvolvimento gerido pelos interesses nacionais. Ser pragmático era para ele mais que uma necessidade, era uma urgência. E o petróleo e o ferro seriam, sob essa ótica, a melhor forma de “aumentar o angu na panela” e fazer avançar as superadas estratégias das elites governantes – burocráticas, conservadoras e submissas aos interesses externos – preocupadas com alternativas que se esquivavam de soluções. Para Lobato o que menos importava era o modo como o angu seria mexido (da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, de cima para baixo ou de baixo para cima). O que o importunava era se o angu seria suficiente para todos. E assim empenhou a sua vida na desditosa luta por um Brasil que assumisse uma contemporaneidade desvencilhada dos velhos costumes oligárquicos que engendravam em seu ventre os incontáveis Jecas deste país continental.

 José Bento Monteiro Lobato faleceu em 04 de julho de 1948, aos 66 anos, sem ver o Brasil como o “país de homens e livros” que sonhara, mas certamente a sua vida guinou o tempo, e a história não seria a mesma sem a sua obra e o seu modo intenso e genial de ser humano. Haveria forma melhor de se tornar um imortal?


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