A água é um fluido essencial à vida. É a substância encontrada em maior quantidade no interior das células dos seres vivos, atuando como solvente de substâncias hidrossolúveis, regulador térmico, ativador de enzimas, transportador de diversas substâncias, somente para citar algumas de suas funções. Para ilustrar a sua importância, uma pessoa de 70 kg, por exemplo, deve ingerir diariamente, entre líquidos e sólidos, cerca de 2 L de água. No entanto, a água possui múltiplos usos indispensáveis a uma variedade de atividades humanas: abastecimento público e industrial, irrigação, produção de energia elétrica, atividades de lazer e recreação, preservação da vida aquática, entre muitos outros.
O eficiente gerenciamento de recursos hídricos atualmente está presente na pauta principal dos governos de todo o mundo. Tal fato decorre da percepção da escassez iminente deste recurso natural, decorrente tanto do aumento do consumo quanto da crescente deterioração de sua qualidade causada pela poluição exacerbada. A escassez dos recursos hídricos e sua utilização desordenada estão entre as maiores preocupações dos líderes mundiais. No entanto, o problema se agrava a cada dia. Em 2000 a Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou que 2,64 bilhões de pessoas têm acesso inadequado a água potável, o que representa 44% da população global. Na Ásia e África o problema é mais intenso, aproximadamente metade da população não tem acesso a saneamento e água potável.
Desta forma, os conflitos se intensificam, e mesmo em regiões do planeta em que há pouco era considerada um recurso ilimitado, a água é atualmente entendida como um recurso escasso. Segundo dados da ONU, caso os hábitos de uso e poluição de recursos hídricos não se alterem, até 2025 dois terços da população mundial estará vivendo em condições de limitação de água potável.
Apesar de ter sido considerado um recurso natural renovável e inesgotável, deve-se considerar que apenas 1% de toda água do planeta está prontamente disponível para o uso (nos lençóis subterrâneos, lagos, rios ou na atmosfera). Assim, é natural que a percepção da escassez faça com que a água passe a ser considerada um recurso natural estratégico, e com grande valor econômico, uma vez que é essencial à existência e bem estar do homem e também para a manutenção dos ecossistemas.
Em termos globais, o Brasil encontra-se em situação privilegiada quanto à disponibilidade de água doce: em território brasileiro estão 13,7% de toda a água doce do planeta e, desse total, 7% na região da bacia hidrográfica do rio Paraná, que inclui o rio Tietê, sendo que o Estado de São Paulo possui 1,6% da água doce brasileira. No entanto, diversas regiões começam a apresentar problemas de escassez e poluição, comprometendo a distribuição igualitária. Dentre os estados nos quais há abundância de disponibilidade hídrica per capita estão Roraima, Amazonas, Amapá, Acre, Pará, e outros. Os estados do Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Distrito Federal, Ceará, são considerados pobres em disponibilidade hídrica per capita, enquanto que na Paraíba e Pernambuco a situação hídrica é considerada crítica. Verifica-se que há maior disponibilidade em estados com menor densidade demográfica e menor atividade econômica. Ocorre ainda que dentro de um mesmo estado o qual pode apresentar bacias mais abundantes em regiões de menor concentração populacional ou atividade, pode haver escassez em regiões mais desenvolvidas. O estado de São Paulo é um exemplo dessa situação. Apesar de apresentar uma situação hídrica per capita considerada correta, para o estado como um todo, a região metropolitana de São Paulo (localizada na bacia hidrográfica do Tietê) apresenta problemas severos, sendo uma mostra desta situação levada ao paradoxismo.
Segundo dados da SABESP (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) no trecho da Região Metropolitana de São Paulo, o Tietê tem uma vazão média anual de água insuficiente para atender as necessidades da metrópole.
A demanda de pico do consumo de água, para atender as mais de 16 milhões de pessoas na Grande São Paulo, é de 69 mil litros por segundo. No entanto, atualmente, são produzidos pouco mais de 60 mil litros por segundo, em média. Metade dessa produção vem de fora da bacia do Alto Tietê, dos formadores do rio Piracicaba. Ou seja, apesar dessa importação, a região ainda apresenta um déficit de 10% no abastecimento.
Este cenário de escassez em maior ou menor grau é vivido em outras regiões e têm sua origem em dois pilares principais: a má utilização da água (desperdício), e a poluição generalizada que ameaça o meio ambiente. A poluição das águas é ocasionada por: efluentes domésticos (poluentes orgânicos biodegradáveis, nutrientes e bactérias), efluentes industriais (poluentes orgânicos e inorgânicos), carga difusa urbana e agrícola (poluentes da drenagem de fertilizantes, defensivos agrícolas, fezes de animais e material em suspensão). A CETESB iniciou, em 1974, o monitoramento da qualidade das águas do Estado de São Paulo, e as informações obtidas possibilitam conhecimento das condições nos principais rios e reservatórios do estado (Figura 1), e fornecem subsídios para intervenções. Para realizar o controle da poluição das águas de nossos rios e reservatórios, são utilizados padrões de qualidade, que definem os limites de concentração aceitáveis para diversas substâncias presentes na água, no total são 33 parâmetros (físicos, químicos e microbiológicos) de qualidade analisados.
Na região metropolitana de São Paulo, como pode ser visualizado na Figura 1 (destaque) os índices de qualidade dos principais rios metropolitanos, desde 2005, mostram-se comprometidos, provavelmente devido aos lançamentos de esgotos acima de sua capacidade de suporte.
No Vale do Paraíba, o quadro, apesar de não ser tão dramático, não é diferente. Na região composta por 34 municípios os quais abrigam quase 5% da população paulista (91% em áreas urbanas), são coletados 89% do total do esgoto produzido, e o índice de tratamento é da ordem de 33%. A Bacia do Paraíba do Sul é composta pelos reservatórios de cabeceira de Paraibuna, Santa Branca e Jaguari, além do reservatório do Funil, cuja área de drenagem é compartilhada pelos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Segundo dados da CETESB, em 2007, a média anual da qualidade das águas do Rio Paraíba do Sul enquadrou-se na categoria Boa, com exceção do trecho de Tremembé a Guaratinguetá, que apresentou média anual na categoria Regular. Resultado provável das contribuições de carga orgânica, advindas da área com atividade urbana mais intensa, como os municípios de Jacareí, São José dos Campos e Taubaté e, adicionalmente, dos esgotos domésticos sem tratamento de Tremembé, Potim, Aparecida e Guaratinguetá.
Em virtude desses graves problemas, doenças veiculadas pela água, tais como diarréia, esquistossomose, hepatite e febre tifóide, que matam mais de 5 milhões de seres humanos por ano, espalham-se mundo afora, e um número maior de doentes sobrecarrega, ainda mais, os precários sistemas de saúde públicos.
O uso irracional e a poluição podem acarretar a falta de água muito em breve, caso nenhuma providência seja tomada.
Francislene Hasmann é bacharel em Engenharia Química graduada pela Faculdade de Engenharia de Lorena - FAENQUIL. Doutorada pelo Instituto de Ciências Biomédicas da USP (São Paulo) desenvolve pesquisas e leciona na área de Biotecnologia e afins. Atualmente, é diretora acadêmica e professora da FACULDADE DE ROSEIRA, instituição de ensino superior pertencente ao CEAVAP.
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