Cunha é um dos maiores municípios, em área, do estado de São Paulo. Estância climática desde 1949, conserva porções significativas de mata atlântica onde nascem alguns rios do estado. Tem uma cultura caipira que ganhou um caráter próprio pelo isolamento prolongado.
Em 1975, um grupo de ceramistas de três nacionalidades: japonesa, portuguesa e brasileira, montou o primeiro atelier de cerâmica de autor no matadouro desativado da cidade. A partir daí Cunha foi-se tornando um dos mais importantes centros de cerâmica artística da América do Sul.
O ambiente rural e a topografia de montanha facilitaram a adoção do forno Noborigama, forno em degraus, de várias câmaras, queimado a lenha em alta temperatura (1300 a 1400ºC), inventado na China e aprimorado no Japão.
O polo cerâmico de Cunha foi crescendo e evoluindo, primeiro com o aumento do número de fornos Noborigama, cinco atualmente, e, em seguida, com a chegada de outros ceramistas usando técnicas variadas. Hoje, a cidade abriga mais de 20 ateliers de cerâmica e os ceramistas estão associados na Cunhacerâmica, Associação dos Ceramistas de Cunha. Recentemente foi criado o Instituto Cultural da Cerâmica de Cunha, com o sentido de expandir e difundir a atividade da cerâmica através de iniciativas pedagógicas, de pesquisa, documentação, museologia e intercâmbio tanto nacional quanto internacional.
A abundância das matérias primas básicas para a cerâmica, a argila e a lenha de eucalipto, facilitaram a instalação de ceramistas na cidade numa situação de auto-suficiência sustentável. A existência desses materiais já tinha permitido o surgimento da atividade da cerâmica na região antes de 75, primeiro com os índios, depois com as paneleiras e também com a olaria artesanal de tijolo ainda hoje amplamente praticada sobre as jazidas de argila.
A argila, material barato tirado do chão que pisamos, fornece meios de vida de baixo investimento e baixa tecnologia a pessoas de baixa renda, como é o caso paradigmático dos oleiros de tijolo que conduzem uma indústria totalmente manual, sem construções permanentes e em que o próprio forno é uma caieira provisória montada com os tijolos crus.
Cunha está vocacionada para a preservação de uma cultura de conteúdo arcaico, que sirva de contraponto à cultura urbana da megalópolis com suas conquistas tecnológicas e seus efeitos colaterais de poluição, trânsito, decomposição social e stress.
A chegada do grupo do matadouro em 75 desencadeou um processo cultural que se diversificou para as áreas do eco-turismo, da agricultura alternativa, da gastronomia e da hospedagem rural e temática, trazendo para o município um caldo cultural, somatório de iniciativas e empreendimentos de pessoas, cada uma com sua história e seu projeto, mas todas ligadas por uma opção de vida de maior comunhão com a natureza.
Foi assim criada uma micro-cultura imigrada que começa agora a frutificar na criação de instituições de índole pedagógica e sócio-ambiental, tais como escolas, ONGs e OSCIPs. Ao mesmo tempo, os profissionais ligados à cultura, e ao consumo dela por visitantes oriundos das grandes cidades, se organizam em associações com o objetivo primordial de melhorar a infra-estrutura de recepção e a qualidade de produtos e serviços oferecidos.
Por outro lado, a população original de Cunha sofre de carências decorrentes da obsolescência das formas tradicionais de sobrevivência como a produção agrícola de alimentos básicos e a pecuária. As novas gerações, desmotivadas das atividades de herança familiar ou desprovidas de recursos e oportunidades formativas, se perdem numa vida sem rumo ou trocam a região pelas chances educativas e profissionais da cidade grande.
A organização do conteúdo sócio-cultural e educacional de um meio como Cunha pode significar, entre outras coisas a fixação do jovem em seu ambiente de origem, que possui os ingredientes básicos de qualidade de vida desde que criadas as circunstâncias que proporcionem sobrevivência e realização pessoal.
A cerâmica pode e deve, pela sua implantação no município, desempenhar um papel de liderança no desenvolvimento humano e profissional das novas gerações de Cunha. Uma herança cultural adormecida pode ser reativada através de ações que só os ateliers de cerâmica terão condições logísticas e conceituais de implementar. Esta transmissão de conhecimentos de uma cultura importada para jovens locais já aconteceu no passado, pela prática do Grupo do Matadouro, tendo produzido dois dos cinco Noborigama da cidade, graças à introdução da figura do aprendiz, aluno/trabalhador, nos ateliers.
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