Ano 2 | Nº 21 | Setembro de 2008
Grafias
Pipa Colorida | Wilson Gorj
   O SINAL anunciava o fim de mais um dia de aulas na escola Murillo do Amaral.

  Para muitos alunos, era como se soasse um apito de largada, tamanha a pressa. Dentre esses, um garoto magricela tomava a dianteira, a fome exigindo de suas pernas o máximo de velocidade. De manhãzinha, antes de sair de casa, a mãe havia lhe prometido para o almoço a sua comida predileta. Panquecas! Correndo, imaginava-as no seu prato, fumegantes e cheirosas.  

  Estava, portanto, absorto nessa visão deliciosa, quando, ao atravessar a avenida, não percebeu o carro vindo em sua direção.

  O automóvel deu uma freada brusca. De modo que o veículo que vinha logo atrás não pôde evitar o embate violento, com o que provocou um barulho não menos assustador que o estrago na traseira do carro à frente.
Caído no asfalto, o menino levantou-se assustado e, sem olhar para trás, continuou a correr, ou melhor, a fugir desembestadamente.

  Natural que fugisse. Não queria que aquele acidente chegasse aos ouvidos de sua mãe.  O castigo seria certo, pois falta de aviso não era. A mãe nunca se cansava de alertá-lo para o perigo daquela via movimentada. “Antes de atravessar a avenida, preste muita atenção. Nunca tenha pressa. Só passe quando não vier nenhum carro.”
Ora, justamente por conta de sua pressa e desatenção ocorrera o tal acidente.  Sendo assim, quanto mais se distanciasse dali, melhor. Quem sabe, se corresse bem, a notícia daquele infeliz episódio não o acompanhasse até em casa.

  Dessa maneira, ia correndo, quando suas pernas afoitas, ao atingirem a rua Sebastião dos Santos, deram uma brecada tão forte quanto a do automóvel que há pouco o havia arremessado de encontro ao asfalto. 
Logo na primeira esquina, avistara uma velha de xale preto.

  Quem era? 
  Sua tia!

  Tão logo a reconheceu, seu coração se pôs acelerado, forçando-o a uma nova corrida desembestada.

  Enquanto corria, pensava no finado avô, de quem aquela tia solteirona cuidara. Se ainda fosse vivo, poderia buscar nele um pouco de cumplicidade e proteção; afinal, sempre contara com sua amigável intercessão nas ocasiões em que a mãe ameaçava aplicar-lhe umas boas chineladas.

  Ah, que saudade sentia do avô! Das tardes azuis em que passavam juntos a empinar papagaios coloridos.
Mas daquela tia beata... Dela não gostava nem de se lembrar.
Chata, ranzinza!  Quantas vezes ela se metera na amizade deles, proibindo o avô de acompanhá-lo em suas brincadeiras, sempre com a justificativa de que essas poderiam ser prejudiciais à saúde já debilitada do “velho pai”.

  Saudade. Medo. Na mente apavorada do menino, lembranças e pensamentos se cruzavam, atropelavam-se.

  Ao fim da sua rua, teve de se deter pela segunda vez. A mãe acabara de sair pelo portão de casa e vinha afobada ao seu encontro. 

  Resignado, postou-se à espera das chineladas e dos puxões de orelha. Óbvio que ela já estava a par de tudo.
No entanto, a mulher passou pelo filho como se não o visse.

  O garoto, vendo o desespero dela, sentiu o coração apertado. Tanto que não se importou mais com o castigo que viria. Agora só queria abraçá-la, consolá-la, pedir-lhe desculpa. Todavia, não pôde levar adiante essa vontade, visto que algo desviou sua atenção em direção oposta. Acabara de ouvir um assobio familiar.

  Virando-se, de imediato reviu a tia – a falecida tia, cuja cabeça, emoldurada pelo xale preto, meneava-se severamente em mais um gesto de censura.

  Aflito e confuso, o menino ainda escutou um segundo chamado. Voltou-se, então, para o local exato de onde vinham aqueles assovios.

  Bem ali, sentado num banco da praça Santo Antônio, um simpático velhinho lhe acenava, chamando-o para perto de si.

  No céu azul, bailava uma linda pipa colorida.

Primeiro colocado no XIX Concurso de Contos "Aconteceu em Aparecida" da Biblioteca Municipal de Aparecida/ SP

Leia também: Encontro em Aparecida, 2º lugar
                      Os Fotógrafos de Aparecida, 3º lugar

Wilson Gorj
Escritor, autor do livro Sem Contos Longos
gorj@jornalolince.com.br
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