Ano 2 | Nº 21 | Setembro de 2008
Entrevista
Ruth Guimarães | Alexandre Marcos Lourenço Barbosa
  Entrevista gravada em 29.08.08, na residência da autora, em Cachoeira Paulista – SP

  O Lince – Estamos na residência da escritora Ruth Guimarães, em Cachoeira Paulista-SP, para uma entrevista exclusiva para o Jornal O Lince. Dona Ruth, muito bom-dia! Eu gostaria de começar fazendo um questionamento à senhora que é de praxe: Como começou essa ligação da senhora com o escrever, com a escrita, enfim, com a literatura de um modo geral?

  Ruth Guimarães – Eu acho que isto vem da minha família. Meu pai tinha uma biblioteca, então, quando eu era bem pequena, eu já brincava com livro, já folheava livro. Quando eu estava na escolinha da roça, já lia os livros do meu pai, apesar de que ele tinha só o Machado de Assis e outros da mesma época, mas a gente lê o que tem, né? Lê o que pode. Li Monteiro Lobato. Monteiro Lobato foi o meu iniciante.

  O Lince – Depois desse primeiro contato, o que levou a senhora a buscar um curso de Letras Clássicas, o que levou a senhora a buscar essa aproximação maior com a literatura?  Teve algum fato marcante ou esses primeiros contatos com Machado, com Monteiro Lobato é que foram a provocação, o estímulo bastante para isso?

  Ruth Guimarães – Eu tive mãe muito imaginosa e gostava muito de ler romance. Em Lorena, eu estudei no começo do ginásio em Lorena, e em Lorena havia uma família, Di Domênico, que alugava livros a 200 réis cada um, por oito dias, e como minha mãe gostava muito de romance, ela me mandava fazer uma assinatura e trazer uns quatro ou cinco livros pra casa. E aqueles livros corriam, mas eram livros assim: Delly... eu nem me lembro mais os autores... esses livrinhos pra moça, porque era isso que minha mãe lia, e eu lia também, mas, com a continuação de leitura, eu fui apurando a maneira de escrever, ficou fácil pra mim escrever. A prática né! Então, tendo prática de escrever, quando havia aula de redação na escola, a minha redação, ainda mais que eu contava com a imaginação da minha mãe que eu herdei... eu tenho muito imaginação... então, com essa prática de ler romance, eu fiquei com uma facilidade muito grande de escrever e quando havia aula de redação que a professora mandava escrever historinha, mandava descrever a sala de aula, claro que eu tinha uma provinha ou um trabalho diferente dos outros trabalhos por causa da minha prática. E aí as professoras se entusiasmavam e mandavam pro jornalzinho da cidade. Chamava-se “O Cachoeirense”. Então, com dez anos, eu escrevia n’O Cachoeirense (risos). Pena que eu não tenho, não guardei, não me incomodei com isso pra ver que porcarias que eu escrevia (risos).

  O Lince – Para uma criança de dez anos, com certeza, tinha muita qualidade.

  Ruth Guimarães – Pois é! Porque eu era constantemente solicitada pra escrever. Tinha um cantinho lá pra mim no jornal da cidade. E quando eu estudei em Guará, eu tinha uns treze anos, por aí, doze ou treze anos, aí eu escrevia pro jornal da cidade, porque eu fui aluna do professor Jerônimo de Aquino (graaande professor!), e ele me ensinou a métrica. Olha! Ninguém estava aprendendo métrica, só eu (risos). A minha vida foi orientada no sentido de escrever.

  O Lince – Então, obviamente que estes contatos desde a família até a escola, escolas...

  Ruth Guimarães – A escola me ajudou muito... porque me tirou da minha casa. Eu fiquei sem pai e sem mãe cedo e fiquei com a minha avó materna. Minha avó era caipira, mineira, contadeira de história. Veja como as coisas vão se acomodando. Quando as coisas têm que ser parece que tudo se encaminha nessa direção. Então, eu fiquei contadeira de história também, e contadeira de história tanto falando como escrevendo. Eu sou contadeira de história até hoje.

  O Lince – E a partir daí, então, o contato da senhora com o mundo acadêmico e, por conseqüência, o contato com a literatura universal mais ampla, mais vasta. Como é que a senhora avalia essa formação acadêmica na definição dos seus rumos literários?

  Ruth Guimarães – O que acontece é que toda gente que tinha contato comigo, contato com a minha família, o divertimento era me ensinar coisas. Cada um me ensinava aquilo que sabia e logo cedo eu peguei uma experiência grande nesse sentido e mudei a escolha de livros, aí eu pude escolher... aí não eram mais aqueles livros de moça, aquela literatura pra moça que era M. Deli e outros. Eu comecei a ler literatura mais séria. Mas literatura mesmo e não historinha.

  O Lince – E a partir daí, quando que a senhora decidiu escrever o primeiro livro, escrever a primeira obra?

  Ruth Guimarães – Eu não decidi escrever um livro não, o livro se escreveu sozinho (risos) porque eu escrevi uma coisa e outra, e quando eu fui para São Paulo, fui procurar os artistas. Veja só que atrevimento! Eu tinha dezessete anos, fui pra São Paulo, fui trabalhar, e gostava de escrever, e fiz uma visita a Abner Mourão do Correio Paulistano, defunto Correio Paulistano. O Abner Mourão leu o que eu escrevi, com aquele jeitão dele, botou os dois cotovelos em cima da mesa, da cátedra dele, de trabalho, e falou pra mim assim: “Foi a senhora mesmo que escreveu isso aqui?” Então aquele “mesmo” me esporiou, né? Claro que fui eu que escrevi, e considerei como um grande elogio: “foi a senhora mesmo que escreveu isto?” E publicou, e publicou.

(Clique na imagem para ampliar)

E isto foi um estímulo porque eu falei: Se o grande Abner Mourão considera bom, então tá bom, então tá bom, então eu vou escrever, e continuei escrevendo.

  O Lince – A gente vê também em todo o trabalho da senhora um grande apreço pelas traduções, especialmente Dostoiévski,...

  Ruth Guimarães – ... eu ganhava o extra fazendo tradução do francês. Dostoiévski eu fiz do francês, de segunda mão... fiz Balzac, fiz Prosper Mérimée, fiz Oscar Wilde, fiz uma porção de traduções. Traduzi do italiano, traduzi do espanhol,...

  O Lince – E desse contato com originais ou traduções a partir textos de “segunda mão”, a senhora foi costurando, alinhavando a sua própria forma de...

  Ruth Guimarães – Muito mais fora da USP do que dentro. Muito mais. O Diaulas, da Cultrix, ele dizia pra mim assim: “Você que devia me pagar pra fazer a tradução para a editora, porque o que você está aprendendo aqui você não aprendia em nenhuma escola do mundo”. Pois é!

  O Lince – E dessas traduções, desse trabalho fora da universidade, somado ao trabalho acadêmico, como a senhora definiria suas maiores influências literárias? Quais são os autores da sua predileção, quais são os autores que mais influenciam sua obra?

  Ruth Guimarães – Bom, o que eu admiro mais e com quem eu concordo no total é Machado de Assis... Machado de Assis... não tem outro pra ele. Eu gosto do Mário de Andrade, por exemplo; gosto muito do Guilherme de Almeida, apesar de que eu não o considero um grande poeta, é um grande escritor de versos (risos)... tem uma grande música e uma grande beleza também, mas é pouco profundo, né? Ele é mais no ritmo do sambinha (risos).

  O Lince – Há poucos dias, saiu na Folha de São Paulo, um artigo remetendo a uma pesquisa de um professor de uma universidade do Rio Grande do Sul comparando Machado de Assis e Borges e fazendo críticas bastante pesadas ao modernismo, a Mário de Andrade, a Osvald. Como é que a senhora vê os escritores modernistas no Brasil?

  Ruth Guimarães – São muito bons... mas são muito bons. O maior de todos é o Mário. Eu fui aluna do Mário! Porque, quando eu escrevi Os Filhos do Medo... eu estava escrevendo Os Filhos do Medo e não tinha pra quem mostrar... e não tinha uma pessoa que me dissesse... que me dissesse alguma coisa, que fizesse alguma crítica contundente, uma crítica que fosse fundo do que eu estava escrevendo. Escrevi e não sabia se aquilo tava... se era bem assim ou se não era. Aí eu procurei o Mário e tive várias sessões com ele, ele se interessou muito, ele era uma criatura sempre disponível pra gente... e fez umas críticas dolorosas, mandou cortar, mandou jogar fora... (risos). E depois ele disse pro Fernando Góes que era jornalista e era amigo comum, dele e meu: “Sabe aquela menina”, porque eu tava com vinte anos ou menos, e ele falou: “Aquela menina sabe, oh Góes, ela reagiu à altura”. Isto, na fala do Mário de Andrade, foi um estímulo pra mim, foi um empurrão pra cima, e daí que eu fiquei mesmo pesquisadora e estudando folclore, sociologia. Fiz sociologia com o Bastidinho e curso pós na USP. Porque, sabe, eu tenho essa idéia de que quando a gente faz uma coisa, ou faz bem feito ou não faz. História de ligar Internet aí, e copiar, não dá certo. A gente dar opinião sem estar com uma base boa, também, é até um pecado.

  O Lince – Temerário.

  Ruth Guimarães – Temerário. Então, o que eu faço, eu faço bem feito, o mais bem feito possível. Quando foi pra escrever os livros religiosos, que eu escrevi para a Cultrix também, eu levei dois anos fazendo Teogonia, pra depois pegar o livro e escrever, que era pra dar uma súmula, um apanhado da religião ou de cada religião direito né, o que era. Então sabia o que era Pentecostes, o que é transubstanciação, o que é que faz a diferença entre o evangélico e o católico, mas não diferença de fé, diferença de conhecimento, por que a religião católica se apóia em Cristo sem discutir se Cristo existe ou não existe, ou existiu como homem ou existiu como Deus, mas a filosofia da religião.

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