Ano 2 | Nº 22 | Outubro de 2008
Grafias
Maria | Wilson Gorj
   Naquelas águas passadas, o curso do tempo fluía lentamente, enquanto, sobre a canoa, remavam três pescadores. Um deles rompeu o silêncio. Era Pedro.

  – Tarde abafada, não acha?

  Antes de responder, Felipe tirou o seu remo da água e, colocando-o sobre os joelhos, molhou a mão no rio.

  – Um calor desse acaba com a gente – disse, umedecendo a testa.

   Na outra ponta da canoa, João permanecia calado: a linha dos olhos lançada para além da margem; o olhar perdido, boiando na superfície das coisas.

  – O que há com ele?- estranhou Felipe. – De uns tempos pra cá, anda meio esquisito.
  – Essa esquisitice tem nome – segredou Pedro. – Chama-se Maria. A crioula anda virando a cabeça dele.
  – Nem me fala nessa diaba – benzeu-se o outro. – Esse aí não é o primeiro que fica assim. Ela já fez muito homem perder a cabeça.

   Pedro achegou-se mais.

   – Deve ter enfeitiçado o João, cochichou.

   Felipe, então, olhou para o companheiro. Enfeitiçado ou não, estava mais que na hora de pescá-lo de volta à realidade.

  – Ei, João! Agora é a sua vez.

   Sem nada dizer, o pescador levantou-se e juntou a rede, preparando-a para lançá-la ao rio. Tarefa que, por sinal, fazia muito bem. A malha desabrochava-se no ar e tombava na água com precisão e elegância.
   Mas João parecia mergulhado em outra realidade. Enquanto os braços puxavam mecanicamente a rede, seus pensamentos, feito denso cardume, nadavam ao redor da escrava, envolvendo-a em fervoroso cortejo. Perdera o domínio sobre eles. Todos convergiam para ela. Só pensava nela. Ah, maldita hora em que se deixara fisgar! Não devia ter se demorado naqueles olhos faceiros. Poderia tê-los evitado, mas, tolo!, mordera a isca. Desde então, seu coração vivia assim: debatendo-se como um peixe fora d’água. Se pudesse, ao menos, devolvê-lo ao remanso de antes...            

   Ao fim, outra vez a rede retornou à canoa sem trazer nenhum pescado. E estaria totalmente vazia, não fosse aquele estranho objeto preso à malha gotejante como um peixe solitário.

   O que seria aquilo?

   Fosse o que fosse, João também se sentia assim: perdidamente enredado. Preso aos encantos de Maria.

Wilson Gorj
Escritor, autor do livro Sem Contos Longos

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