Certamente no Brasil temos algumas ótimas rodovias, principalmente no Estado de São Paulo, mas a impressão é a de que o Brasil está uns 50 ou 100 anos atrasado com relação ao sistema rodoviário, quando comparado à maioria dos países da Europa e mais ainda se comparado com a Alemanha. Não só o sistema rodoviário, mas também o sistema de transporte público por aqui é extremamente desenvolvido. Possivelmente a maior razão seja a alta capacidade de investimento dos governos estaduais e federais. As estradas são muito boas, sejam privadas ou públicas. As alemãs são 100% públicas, a capacidade de investimento do governo Alemão é impressionante, mesmo para fazer manutenção do que já existe.
As Estradas na Alemanha
As estradas na Alemanha são de ótima qualidade. Na sua grande maioria, as estradas interestaduais (Autobans) não têm limite de velocidade. É comum automóveis trafegando a uma velocidade de 200 Km/h em estradas simplesmente excelentes, além, é claro, do alto grau de educação e disciplina do alemão no trânsito.
Outra característica é o fato de as estradas na Alemanha não cobrarem nenhum pedágio, o que não acontece na grande maioria dos outros países. O imposto que o cidadão paga é o suficiente para manter a excelente qualidade das estradas.
Pagar impostos na Alemanha não é muito diferente do que no Brasil. O trabalhador paga na fonte. A diferença é que praticamente todos os cidadãos pagam impostos (sonegação é baixa se comparada com países como o Brasil, pois o controle é eficiente e aqui o crime não compensa) e quem paga, paga muito! Em resumo, de 25% a 45% se for assalariado.
As diferenças mesmo estão nos benefícios e na própria estrutura de impostos. Se bebidas e cigarros pagam impostos altíssimos, automóveis pagam taxas bem menores de impostos, o que faz os automóveis alemães com sistemas de segurança muito avançados, como Mercedes Benz, BMW e Audi, serem bem acessíveis a toda a população, assim como as marcas mais populares e consideradas menos seguras como VW, GM, Fiat, KIA e Renault.
A combinação “estradas ótimas” e “automóveis seguros” faz das longas viagens nas estradas alemãs um verdadeiro passeio a altas velocidades.
Na Alemanha, o automóvel é realmente para ser usado nas estradas, pois dentro das cidades é muito mais fácil usar o transporte público.
O Transporte Público
Os impostos são altos e as estradas e automóveis são de ótima qualidade, mas o transporte público rápido e moderno é melhor ainda, principalmente dentro das cidades.
Na cidade de Munique, totalmente urbana, dificilmente alguém vai conseguir morar numa casa que esteja longe mais que 300 metros de um ponto de ônibus, bonde, metrô ou trem. O sistema é totalmente integrado entre estes quatro diferentes meios de transporte, permitindo um deslocamento perfeito e rápido por toda a cidade. Os ônibus e bondes dividem espaço com os automóveis nas ruas, mas sempre com prioridade de ultrapassagem e às vezes com vias expressas exclusivas.
Algumas ruas de Munique são estreitas, o que faz ser difícil acreditar que os ônibus e bondes consigam seguir o horário rígido de saída e chegada em cada ponto de parada, mas que funciona perfeitamente em mais de 95% dos casos.
Já o metrô e os trens suburbanos têm pontualidade melhor ainda. Fazendo o deslocamento de um extremo a outro da cidade não durar mais do que 30 minutos. Pra uma cidade de um milhão e meio de habitantes, não é tão ruim. De carro duraria mais que isso certamente.
A consciência e disciplina alemã, mais uma vez, ficam evidentes, no processo de compra de passagens para o transporte. Você pode comprar um bilhete que seja válido para todo o ano, para um semestre, para um mês, uma semana, ou um dia. Não existem cobradores e nem roletas. O cidadão deve comprar as passagens e tê-las com ele caso sejam requisitadas. Aleatoriamente, alguns poucos fiscais fazem uma checagem se os passageiros trazem as passagens ou não. Não mais que 1% dos passageiros tem que apresentar anualmente as passagens aos fiscais. Estima-se que mais de 90% da população pague honestamente o transporte público. A economia nos sistemas de controle (roletas e cobradores) combinadas com a disciplina e alta punição em caso de um desonesto ser identificado por um fiscal, faz o sistema ser muito eficiente.
As linhas de transporte são praticamente perfeitas, mas, se um grupo de pelo menos 40 passageiros tem uma origem e um destino em comum que não seja servido muito bem pela empresa de ônibus, uma solicitação é feita e uma nova linha é criada para atender àquele grupo específico. Normalmente, nestes casos, o custo é um pouco mais alto, mas a qualidade do ônibus superior, sendo parecido com alguns sistemas que já existem em SP e RJ.
O que parece fazer o trânsito dentro de Munique se integrar perfeitamente com o transporte público foi o fato de tanto o sistema urbano “U-Bahn” como o suburbano “S-Bahn” terem começado a ser construídos em 1965 e tido a partir de 1966 sua construção acelerada para suportar os jogos olímpicos de 1972 e depois também a Copa do Mundo de 1974. O planejamento anterior a II Guerra Mundial e o alto investimento para as Olimpíadas permitem hoje que os trens e as tecnologias antigas sejam substituídos sem maiores custos. A quantidade de linhas de metrô e trem suburbanos tanto de superfície como subterrâneo não teria sido possível se não tivessem sido planejados muito tempo atrás.
O eficiente transporte público de Munique é, sem dúvida, um grande aliado do meio-ambiente, pois incentiva as pessoas a deixarem o automóvel em casa e economizar combustível e não poluir. Também não são raros aqueles que vão trabalhar de bicicleta, pois a cidade é plana e com muitas ciclovias.
Além de aliado do meio-ambiente, o transporte público de Munique permite que os Bávaros mantenham sua tradição de grandes consumidores de cerveja do mundo. Como as multas de trânsito são altíssimas, fazendo que em caso de reincidência a carteira de motorista seja confiscada para sempre, somente usando o transporte público se pode sair de casa e tomar cerveja com os amigos sem precisar se preocupar com a volta.
Francisco de Assis Menezes Reis é engenheiro e reside em Munique, na Alemanha