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Ano 2 | Nº 23 | Novembro de 2008
Entrevista
Moacyr Scliar
   Nesta edição, O Lince traz uma entrevista especial com Moacyr Scliar, da Academia Brasileira de Letras. Autor de mais de sessenta livros, este gaúcho de Porto Alegre, nascido em 1937, transita com notável proficiência nos mais variados gêneros literários. Seus romances, crônicas, contos, ensaios e textos infantis valeram-lhe, além de prêmios, o reconhecimento da crítica e do público.

  Médico de formação, Moacyr Scliar publicou o seu primeiro livro, “Histórias de um médico em formação”, aos 25 anos e, a partir daí, não mais parou.
Alguns livros de Scliar já foram traduzidos e publicados, entre outros países, na Alemanha, Eslováquia, Espanha, Estados Unidos, França, Holanda, Inglaterra, Noruega, Portugal, República Tcheca, Rússia e Suécia.

   O Lince inova ao trazer perguntas formuladas em quadrantes distintos. São três escritores e colunistas do jornal e uma professora de literatura questionando a partir de óticas e preferências várias e sem qualquer comunicação prévia que pudesse levá-los a emoldurar perguntas sob critérios compartilhados. As perguntas foram propositalmente colocadas na seqüência em que foram formuladas pelos seus autores e a definição da ordem dos seus autores foi definida de modo a permitir uma certa coerência de estrutura à entrevista. Todavia, a ausência do nexo de linearidade permitido pela entrevista tradicional deixa transparecer uma multi-dimensionalidade que pode ser enriquecedora.

  A primeira pergunta foi elaborada pela redação. As questões de dois a cinco foram formuladas por Wilson Gorj. Marcelo Menezes foi o responsável pelas quatro perguntas seguintes. A Nuno Marques atribuem-se as formulações de número dez e onze, e as perguntas finais couberam a professora Vera Lúcia Paula Santos.

  O Lince – Moacyr Scliar por Moacyr Scliar.

  Moacyr Scliar – Defino-me como alguém que, apesar de veterano, ou justamente por causa disso, continua buscando respostas, sobretudo através do texto escrito.

  O Lince – Em qual gênero o senhor se sente mais à vontade: romance, conto, crônica ou ensaio?

  Moacyr Scliar – Nos três. Depende do tema, claro. Temas ligados à realidade exigem crônica (se o assunto é leve) ou ensaio. Ficção ampla é romance; ficção sintética, conto – que considero o gênero mais difícil, mas também o mais literário.

  O Lince – Se fosse reduzir a aprendizagem literária em três regras, quais seriam?

  Moacyr Scliar – Ler muito, escrever bastante e, sobretudo, reescrever.

  O Lince – Alguns autores acreditam que a literatura esteja em declínio, isto é, que ela estaria morrendo ou perdendo o posto elevado que sempre ocupou em nossa civilização ocidental. Na sua opinião, este prognóstico pessimista constitui um exagero ou nele contém alguma verdade?

  Moacyr Scliar – De fato, a ficção já não tem a amplitude que teve no século dezenove, quando seu papel era ensinar as pessoas a viver. Por outro lado, a ficção conquistou espaços: cinema, tevê. Mas a literatura continua sendo importante.

  O Lince – Para muitos, a modernidade tecnológica; influindo na linguagem escrita ou, mais precisamente, na literatura contemporânea, levando-a a uma forma cada vez mais enxuta e, por conseqüência, mais curta. Tanto os romances quanto os contos produzidos atualmente estão se tornando mais contidos, sugerindo uma leitura mais rápida e adequada à correria dos nossos dias. Até que ponto esta concisão ditada por nossa época pode ser favorável ou desfavorável à evolução da literatura?

  Moacyr Scliar – Acho que tende a ser mais favorável do que desfavorável. Entre o excesso e a economia, prefiro esta. Menos é mais.

  O Lince – O Brasil atravessa uma fase de relativa maturidade política, com a consolidação dos dispositivos democráticos, e de estabilidade econômica, através de resultados satisfatórios de nossa moeda. De que maneira esses dois fatos influenciam sua produção como escritor?


(Clique na imagem para ampliar)

  Moacyr Scliar – Estes fatores influenciam o mercado, não a criação literária.

  O Lince – Em termos de criação, o que favorece a produção de uma crônica: uma conjuntura social favorável ou uma desfavorável?

  Moacyr Scliar – A pergunta não pode ser respondida de forma simples, mas quando mais complicada a época, mais interessante (infelizmente) ela é, inclusive do ponto de vista literário.

  O Lince – Qual a importância da literatura – e conseqüentemente da crônica jornalística – como instrumento de interferência nas múltiplas realidades que nos cercam nos dias de hoje?

  Moacyr Scliar – Nem a ficção nem a crônica vão mudar o mundo. O jornalismo, especialmente o investigativo, é mais poderoso neste sentido.

  O Lince – O escritor, de uma maneira geral, tem ou deve ter alguma missão?

  Moacyr Scliar – Sim: escrever o melhor possível

  O Lince – O senhor faz uma releitura de “O Guarani” voltada aos adolescentes. Que outras estratégias os educadores (pais, professores etc.) poderiam dispor para enredar o jovem na leitura das obras clássicas?

  Moacyr Scliar – Muitas. Adaptação teatral, adaptação para vídeo – já vi um conto ser apresentado como se fosse noticiário de tevê (funcionou...)

  O Lince – Parece que há falta de narrações nos grandes periódicos brasileiros. O senhor concorda que a crônica tem sido usada atualmente para divagações e defesas de idéias que para se contar boas histórias?

  Moacyr Scliar – Concordo. E também tem sido usada como exibição de egos inflados.

  O Lince – Como recriador de histórias nacionais, na sua concepção, qual é o grande “herói” brasileiro? E como o senhor entende a figura de um “herói” nas suas narrativas?

  Moacyr Scliar – Eu ficaria com Macunaíma. Mas não me sensibiliza a figura de “herói”. Prefiro pensar em “personagem forte”.

  O Lince – O senhor enquadraria seus textos na definição de Realismo fantástico? Por quê?

  Moacyr Scliar – Os contos de O Carnaval dos Animais e livros como O Centauro no Jardim, sim. Era uma influência muito forte na época – por causa da repressão política. Recorríamos ao imaginário, a metáfora, como uma forma de denúncia.

Leia ainda: Biografia de Moacyr Scliar

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