Moacyr Scliar – Defino-me como alguém que, apesar de veterano, ou justamente por causa disso, continua buscando respostas, sobretudo através do texto escrito.
O Lince – Em qual gênero o senhor se sente mais à vontade: romance, conto, crônica ou ensaio?
Moacyr Scliar – Nos três. Depende do tema, claro. Temas ligados à realidade exigem crônica (se o assunto é leve) ou ensaio. Ficção ampla é romance; ficção sintética, conto – que considero o gênero mais difícil, mas também o mais literário.
O Lince – Se fosse reduzir a aprendizagem literária em três regras, quais seriam?
Moacyr Scliar – Ler muito, escrever bastante e, sobretudo, reescrever.
O Lince – Alguns autores acreditam que a literatura esteja em declínio, isto é, que ela estaria morrendo ou perdendo o posto elevado que sempre ocupou em nossa civilização ocidental. Na sua opinião, este prognóstico pessimista constitui um exagero ou nele contém alguma verdade?
Moacyr Scliar – De fato, a ficção já não tem a amplitude que teve no século dezenove, quando seu papel era ensinar as pessoas a viver. Por outro lado, a ficção conquistou espaços: cinema, tevê. Mas a literatura continua sendo importante.
O Lince – Para muitos, a modernidade tecnológica; influindo na linguagem escrita ou, mais precisamente, na literatura contemporânea, levando-a a uma forma cada vez mais enxuta e, por conseqüência, mais curta. Tanto os romances quanto os contos produzidos atualmente estão se tornando mais contidos, sugerindo uma leitura mais rápida e adequada à correria dos nossos dias. Até que ponto esta concisão ditada por nossa época pode ser favorável ou desfavorável à evolução da literatura?
Moacyr Scliar – Acho que tende a ser mais favorável do que desfavorável. Entre o excesso e a economia, prefiro esta. Menos é mais.
O Lince – O Brasil atravessa uma fase de relativa maturidade política, com a consolidação dos dispositivos democráticos, e de estabilidade econômica, através de resultados satisfatórios de nossa moeda. De que maneira esses dois fatos influenciam sua produção como escritor?
Moacyr Scliar – Estes fatores influenciam o mercado, não a criação literária.
O Lince – Em termos de criação, o que favorece a produção de uma crônica: uma conjuntura social favorável ou uma desfavorável?
Moacyr Scliar – A pergunta não pode ser respondida de forma simples, mas quando mais complicada a época, mais interessante (infelizmente) ela é, inclusive do ponto de vista literário.
O Lince – Qual a importância da literatura – e conseqüentemente da crônica jornalística – como instrumento de interferência nas múltiplas realidades que nos cercam nos dias de hoje?
Moacyr Scliar – Nem a ficção nem a crônica vão mudar o mundo. O jornalismo, especialmente o investigativo, é mais poderoso neste sentido.
O Lince – O escritor, de uma maneira geral, tem ou deve ter alguma missão?
Moacyr Scliar – Sim: escrever o melhor possível
O Lince – O senhor faz uma releitura de “O Guarani” voltada aos adolescentes. Que outras estratégias os educadores (pais, professores etc.) poderiam dispor para enredar o jovem na leitura das obras clássicas?
Moacyr Scliar – Muitas. Adaptação teatral, adaptação para vídeo – já vi um conto ser apresentado como se fosse noticiário de tevê (funcionou...)
O Lince – Parece que há falta de narrações nos grandes periódicos brasileiros. O senhor concorda que a crônica tem sido usada atualmente para divagações e defesas de idéias que para se contar boas histórias?
Moacyr Scliar – Concordo. E também tem sido usada como exibição de egos inflados.
O Lince – Como recriador de histórias nacionais, na sua concepção, qual é o grande “herói” brasileiro? E como o senhor entende a figura de um “herói” nas suas narrativas?
Moacyr Scliar – Eu ficaria com Macunaíma. Mas não me sensibiliza a figura de “herói”. Prefiro pensar em “personagem forte”.
O Lince – O senhor enquadraria seus textos na definição de Realismo fantástico? Por quê?
Moacyr Scliar – Os contos de O Carnaval dos Animais e livros como O Centauro no Jardim, sim. Era uma influência muito forte na época – por causa da repressão política. Recorríamos ao imaginário, a metáfora, como uma forma de denúncia.
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