Ano 2 | Nº 15 | Março de 2008
Drops
Quintanares | Mário Quintana
  Carreto
  Amar é mudar a alma de casa.

  Mentira?
  A mentira é a verdade que se esqueceu de acontecer.

  O tempo
  O tempo é a insônia da eternidade.

  O pior
  O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso.

  Vivência
  O bom das filas é nos convencerem de que afinal esta pobre vida não é tão curta como dizem.

  Horror
  Com os seus OO de espanto, seus RR guturais, seu hirto H, HORROR é uma palavra de cabelos em pé, assustada da própria significação.

  A esperança
  Não, o provérbio não está bem certo. O raio é que, enquanto há esperança, há vida. Jamais foi encontrado no bolso de um suicida um bilhete de loteria que estivesse para correr no dia seguinte.

  Estival
  Fazia tanto calor que as sombras se ocultavam debaixo da barriga dos cavalos e da copa das árvores.

  Verão
  No verão dá cupim na cabeça da gente. Cupim ou caruncho? Será a mesma coisa? Não sei. Nem vou saber agora. Verão é isso mesmo: preguiça de procurar palavras no dicionário.

  Paisagem de após-chuva
  A relva, os cavalos, as reses, as folhas, tudo envernizadinho como no dia inolvidável da inauguração do Paraíso...

  Evolução
  O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser o nosso futuro.

  Conto de horror
  E um dia os homens descobriram que esses discos voadores estavam observando apenas a vida dos insetos.

  Da modéstia
  A modéstia é a vaidade escondida atrás da porta.

  Da relativa igualdade
  Democracia? É dar, a todos, o mesmo ponto de partida. Quanto ao ponto de chegada, isso depende de cada um.

  Do bem e do mal
  No fundo, não há bons nem maus. Há apenas os que sentem prazer em fazer o bem e os que sentem prazer em fazer o mal. Tudo é volúpia...

  Do conhecimento
  Tudo já está na enciclopédia e todas dizem as mesmas coisas. Nenhuma delas nos pode dar uma visão inédita do mundo. Por isso é que leio os poetas. Só com os poetas se pode aprender algo novo.

  A borboleta
  Cada vez que o poeta cria uma borboleta, o leitor exclama: “Olha uma borboleta!” O crítico ajusta os nasóculos e, ante aquele pedaço esvoaçante de vida, murmura: “Ah! sim, um lepidóptero”.

  Fatos consumados
  ... e se eles te apertarem muito sobre o que quiseste dizer com um poema, pergunta-lhes apenas o que Deus quis dizer com este nosso mundo.

  Contrição
  Bem que eu desejaria entender tanto de poesia como certos críticos, mas aí, então, não conseguiria fazer um único verso...

  O trágico dilema
  Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.

  Os intermediários
  Não me ajeito com os padres, os críticos e os canudinhos de refresco... Não há nada que substitua o sabor da comunicação direta.

  Preto no branco
  A arte de escrever é, por essência, irreverente e tem sempre um quê de proibido: algo assim como essa tentação irresistível que leva os garotos a riscar a brancura dos muros.

  Cartaz para uma feira do livro
  Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem.

Extraídos dos livros Sapato Florido e Caderno H –– Mario Quintana (1906-1994).
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