Ano 2 | Nº 19 | Julho de 2008
Grafias
A espera | Wilson Gorj
Ao sentar-se no sofá, quase derrama o café. Já é a terceira xícara. Censura-se por tomar café demais. Cafeína em excesso faz mal, vicia, quem não sabe? Ainda bem que não fuma, um mal a menos. Olha o relógio: passaram-se apenas quinze minutos. Não seria meia hora? Não: quinze minutos, exatos quinze minutos. Revolta-se, mas se consola: às duas da tarde até o tempo parece pachorrento. Também com esse calor... Deita-se. Dá uma espreguiçada gostosa, procura relaxar, o olhar fito no teto. Na cabeça os pensamentos giram em torno do mesmo tema. Por que a demora? O que terá acontecido? Desvia então os olhos para o telefone; o aparelho cinza mantém-se mudo há mais de uma hora. Torna a levantar-se. Vai até a janela. A vista do apartamento no terceiro andar não oferece nada de encantador. Telhados encardidos, quintais atulhados de quinquilharias; adiante, vê-se um pedaço da rua de paralelepípedo cujas calçadas ostentam algumas árvores. Que tédio... Num daqueles quintais, descobre um cão amarrado no esteio de uma pequena cobertura de zinco. O animal lança um olhar curioso, ensaia um latido, mas, em vez disso, o que sai é um bocejo (no que ele volta a enroscar-se no chão, o focinho enterrado no peito, ar de preguiça). Tchau, cachorro... Sai da janela e volta a atirar-se sobre o sofá. Apanha o controle e liga a TV. Aparece uma apresentadora: “Hoje vamos ensinar o que você, dona-de-casa, deve fazer para economizar com...” Muda de canal. Alguém leva um tapa na cara. VALE A PENA VER DE NOVO. Sobe o seletor, odeia novela. Procura em outros canais qualquer programa que prenda sua atenção. Não encontra. Desliga. Olha para a estante. Porcelanas, porta-retratos e livros, muitos livros enfileirados desordenadamente. Devia ter pensado nisso antes, ora bolas! De lá apanha uma seleção de contos brasileiros. Abre e, através do índice, escolhe o título mais interessante.
“A espera”. Hum, vem a calhar... E os óculos, onde estarão esses óculos? Ah, que bom, ali estão. Coloca-os. Começa a ler o tal conto. Mas não consegue assimilar o texto de uma vez. A cada instante interrompe a leitura, ora para intimar o relógio pendurado na parede, ora para indagar o aparelho telefônico. Mudez e lentidão, nada de novo. Dez minutos depois, termina de ler o conto (não gostou, chato demais). Lembrou-se de que o livro tinha sido presente de uma amiga. Curioso, sempre ganhava livros como presente. Culpa sua, a todos dizia que adorava ler. E escrever. Boa idéia, pensou. Escrever é uma distração. Abre a gaveta da escrivaninha e retira de lá papel e caneta. Nesse exato momento – aleluia, aleluia! – o telefone toca (nem dá pra crer, o telefone está tocando!). Atende – mais veloz que!!! Mas não escuta ninguém do outro lado da linha. Sacanagem, caiu a ligação. Devolve o fone ao aparelho e volta para a escrivaninha. Senta-se e coloca no cabeçalho da folha: ”A espera”. Bem, aí está o título; e agora, como começar? Ah, sim. “Ao sentar-se no sofá...


Wilson Gorj
Escritor, autor do livro Sem Contos Longos
gorj@jornalolince.com.br
omuroeoutraspgs.blogspot.com

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