“Joaquim foi uma pessoa extraordinária, na sua simplicidade, humildade e tolerância. Teve muito pouco corpo, mas o espírito nele foi exuberante. Deus tenha este querido filho na sua glória.”
Dom Geraldo Maria de Moraes Penido, Arcebispo de Aparecida.
Há dezoito anos, aos 33 anos, despedia-se, em “Testamento”, o jovem jornalista Joaquim Costa.
Boêmio e terno, amigo e companheiro, inteligente e intemerato, revolucionário e resistente às injustiças, poeta-crítico e crítico-poeta, Joca, como era conhecido, fez de suas convicções socialistas o cerne de carvalho de sua tenra existência. Fragilidade? Só aparente. Mas quem pode dizer que a fortaleza humana está em seu invólucro? Joca é a própria revogação das leis que orientam o senso comum.
Por isso, “O Lince” presta sua homenagem republicando,
in memoriam, a entrevista
Joca: uma lição de vida, vinda a público em 1990, por ocasião de sua morte.
O destino reservou-me o desafio de cumprir a pauta mais dolorosa e emocionante de minha vida: colocar no papel, como se fosse a rotina diária de todos nós jornalistas, alguma coisa sobre meu irmão, mestre, confidente e parceiro Joaquim Costa, o Joca.
Incapaz de cumprir tão ingrata missão, fui buscar em seus papéis amarelados algumas passagens que definissem uma pálida idéia das muitas lições que nos deixou. Nesta entrevista, onde as respostas são fundamentais, o Joaquim deixa claras algumas de suas posturas perante a vida.
Só tenho uma coisa a dizer: meu irmão, eu preferia mil vezes que você fosse o entrevistador, e eu o entrevistado. (Barbosa Filho)
Testamento – Joca, você seria capaz de traçar, em poucas linhas, sua autobiografia?
Joaquim Costa – Como definir um fingidor em poucas palavras? Podemos falar de paixões, sonhos, loucuras. Muito mais do que vinte, uma pouco menos do que trinta: esta é a minha idade. Aprendi muito por aí: faculdades de botecos e de cátedras não me faltaram. Errante, sempre, por aqui, por ali, acolá. Esta coisa de fazer autobiografia, ainda mais em poucas linhas, é difícil. Como é que dá para escrever memórias, quem, às vezes, não se lembra nem mesmo de como chegou em casa na noite de ontem.
Testamento– Mas fazendo um balanço, você sabe que muitas pessoas te julgaram, ao longo da vida, não é?
Joaquim Costa -
Não há o juiz
Não há quem julgue
Não há nem
Quem faça idéia
Das coisas acontecidas.
E, em sendo assim,
Não há nem o que pensar.
Os olhos de Oxalá
São maiores
Do que o mistério
Das terras de Obi.
E, em sendo assim,
Não serão tais olhos
Aqueles que me desvenderão,
Porque minha vida
Anda não aceitou fazer topless
Para ninguém.
Muito grato pela atenção.
Testamento – Você passou temporadas longe de sua cidade, de sua família. Como se sente um homem nessas circunstâncias?
Joaquim Costa – Uma saudade muito grande chega nesta hora: amigos, lugares, amores, tudo em outro lugar. Nada nesta cidade fria, tudo tão longe, lembranças que vão puindo como tecido velho nesta malha da vida, já tão gasta, sem novidades. Saudade da comida da mãe, do colégio de freiras, de uma praia de Parati e, como diz a música do Milton, da “profusão das coisas acontecidas”. Gente, muita gente, algum amor que houve algum dia.
Testamento – Em 1983, você escreveu um artigo no Valeparaibano, onde criticava a postura elitista de certos intelectuais da nossa região. Ali aparecia toda a sua visão sobre a cultura viva, popular e a cultura de gabinetes, que tanta gente cultuava. Qual a sua posição sobre a cultura no Vale?
Joaquim Costa – Café de Iaiá, café de Ioiô. A cultura do Vale ainda hoje é o reflexo das riquezas do café. Nossos intelectuais ainda sonham com o café, fazem de conta que não houve a quebra e que a industrialização ainda é o sonho dourado de Getúlio. Há suspiros lânguidos a sonhar com os sobrados, pianos e vestidos vindos de Paris. Cadê o povo em nossa história? Cadê o escravo? O povo está escondido embaixo das fantasias. O Vale do Paraíba só tem pompas, pompas! O cheiro do povo está sufocado pela água de colônia dos nossos perfumados sonhadores. É preciso derrubar “as prateleiras, as estantes, as estátuas” da cultura careta e carcomida. É preciso revirar os lençóis das famílias tradicionais. A história não é estória nem conto de carochinha de barões e príncipes.
Testamento – Suas posições políticas e pessoais devem ter lhe trazido alguns desencontros pessoais, ou não?
Joaquim Costa – Não posso abrir as pernas para o mundo e deixar que todos se satisfaçam. É natural, portanto, que eu tenha inimigos. Não posso abrir as pernas para o mundo e ser parceiro de tantas indecências.
Testamento – Você é um devoto assumido de Nossa Senhora Aparecida e pertence à Irmandade de São Benedito. E escreveu algo sobre isso num dia de Nossa Senhora. Poderia repetir aquele texto?
Joaquim Costa – Hoje temos pouco a dizer. Data dedicada a Nossa Senhora Aparecida, temos mais é que agradecer à Santa por uma série de coisas referentes à nossa vida e à própria vida do País. Vejam, por exemplo, que estamos vivos e isto já é importante. O Brasil entra em nova fase com a promulgação da Constituição. Tudo isto, se é que me entendem, já basta para agradecer a Nossa Senhora Aparecida, por ser tão generosa com todos nós, que vivemos aqui, debaixo da proteção do seu manto.