José Luiz Pasin | 2ª parte | extraído do jornal A Semana, de 1987
A Semana – Zé, você se quisesse, poderia estar numa USP, numa grande instituição cultural. Mas você prefere ficar aqui no Vale do Paraíba. Por que, Zé Luiz, esta obstinação com o Vale do Paraíba?
José Luiz Pasin – Pelo seguinte: eu acredito que é preciso, Joaquim, acabar com um certo provincianismo que nós ainda temos de que pra você ser conhecido, pra você ser importante, pra você ter valor, você tem que ir pra São Paulo ou Rio de Janeiro. Eu penso um pouco como Gilberto Freyre, Érico Veríssimo, Leandro Tocantins e outros brasileiros que ficaram fiéis a seus estados, ficaram fiéis à província e daí fizeram seu diálogo com o mundo. Da minha janela na Roseira Velha, quando eu abro de manhã, eu faço meu diálogo com o mundo. É indiferente morar em Roseira Velha, Rio de Janeiro, Londres, Paris ou Roma; tudo é muito relativo. O que importo é o que faço no espaço onde moro; é a minha relação diária com as pessoas e com a cultura. Eu sempre digo que o meu país, antes de tudo é o Vale do Paraíba, inserido no Brasil. Estas fronteiras geográficas, estas raízes, que constituem a Serra da Mantiqueira, de um lado, e a Serra do Mar, do outro, elas impelem a minha caminhada e eu não saberia viver fora deste Vale do Paraíba. Eu também não saberia viver fora deste espaço da Fazenda Boa Vista, na Roseira Velha. Eu já me considero uma árvore, enraizada neste espaço. Isto não impede que eu produza, que eu escreva, que eu me relacione com as pessoas e que eu me considere também um cidadão do mundo.
A Semana – Zé Luiz, estes dias eu lia um autor alemão, cujo nome é um bocado complicado e eu não me lembro agora, e ele dizia que escreve “para encontrar a pátria espiritual, porque a pátria natural não existe”. Qual é a sua pátria espiritual, Zé Luiz?
José Luiz Pasin – Eu acredito na pátria espiritual e eu digo que nós, que nem sempre somos compreendidos pela maioria das pessoas por causa das nossas idéias, das nossas convicções, do nosso desprendimento e até mesmo da nossa ousadia em desafiar preconceitos e tabus, isto formaria esta nossa pátria espiritual. Pra mim, a pátria espiritual é aquela pátria das pessoas que em qualquer lugar do mundo têm uma disponibilidade pela vida. Elas têm espírito de disponibilidade com os outros, independente de língua, de pátria, cultura. Elas se preocupam, por exemplo, com os direitos humanos. Eu vejo cada vez mais, começando pelo Brasil, começando pelas nossas cidades, o homem desrespeitado, o homem violado diariamente em seus direitos. As crianças, as mulheres, os negros, os idosos, os dissidentes sexuais, em todos os aspectos a sociedade é cruel com as pessoas que não são bonitas, que não têm dinheiro, que não têm inteligência. Esta sociedade que criou valores consumistas, capitalistas, que visam unicamente o lucro; estes cidadãos da pátria espiritual se colocam exatamente contra isto. Vejamos o trabalho de Madre Tereza de Calcutá, na Índia, cuidando de milhares de leprosos. A Anistia Internacional que denuncia e pressiona em favor de milhares de prisioneiros políticos em prisões de direita e de esquerda. Eu não diferencio as ditaduras, sejam elas de direita ou de esquerda. É esta pátria espiritual, então, que nos dá força pra falar, nos dá força para lutar, nos dá força pra escrever e faz com que a gente não tenha medo. O medo físico não existe. Quando você tem uma força espiritual, você crê nela como um ser universal.
A Semana – Zé, é difícil falar com você porque você me emociona depois de falar coisas tão bonitas. Acho que a gente vai ficando mais velho e cada vez mais emocionado...
José Luiz Pasin – ... Eu tenho uma formação socialista, acredito que o caminho para o Brasil, e para qualquer país do mundo até este momento, é a social-democracia. Não acredito em regimes totalitários de esquerda e muito menos em regimes capitalistas conservadores de direita. Isto seria perpetuar este estado de miséria e de conflitos que nós assistimos no Brasil e no mundo todo.
A Semana – E sua posição quanto ao Partido Verde, apesar de você não ter engajamento partidário?
José Luiz Pasin – Eu sempre fui contra os programas nucleares e uma das metas do Partido Verde é exatamente desativar estes monstros nucleares como Angra dos Reis, que só trazem problemas para o Brasil. O Partido Verde defende os direitos humanos e todas as chamadas minorias: índios, mulheres, negros, minorias religiosas, homossexuais. A proposta do partido se aproxima dos meus ideais de vida.
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A Semana – Sua esperança na juventude, Zé...
José Luiz Pasin – Partilho de toda a esperança que o Tom Maia também tem na juventude. Minha atividade, como idealista que sou, sempre foi voltada para os jovens. Acredito no potencial criador dos jovens, exatamente porque a juventude é encarada como alienada, como incapaz e eu não concordo com isto. Durante o tempo do militarismo, iniciado em 64, os jovens sempre resistiram. Na música, nas artes, na ecologia, os jovens demonstram muita criatividade. É a generosidade da juventude. Eu percebo que o jovem tem uma generosidade, um desprendimento muito maior que a geração adulta, que é uma geração muito egoísta, formada nos padrões capitalistas de consumo, que pensa exclusivamente em acumular bens. Eu acho que devemos fazer o melhor uso possível da nossa capacidade, da nossa inteligência, do nosso trabalho, para servir também à comunidade e é neste espaço que os jovens entram.
A Semana – Você é do signo de Virgem, nascido em 27 de agosto, qual o perfil que você faria de si mesmo?
José Luiz Pasin – Eu vejo o José Luiz Pasin como uma pessoa sensível, uma pessoa de formação humanista, aberta aos valores universais, um tanto preocupado com uma certa ordem nas coisas. Mas, sobretudo, o José Luiz Pasin é uma pessoa universal que está aberta às mudanças, aberto às novas idéias e acima de tudo uma pessoa preocupada com se identificar com a natureza. Eu cada vez mais procuro pautar a minha vida pelos valores da natureza. Eu vejo que a natureza é um grande laboratório, onde eu posso repensar meus valores.
A Semana – Zé Luiz, é impossível deixar de referir à nossa amizade. De tanto tempo que somos amigos eu sempre te achei uma pessoa extremamente apaixonada, tanto por aquilo que você faz quanto por aquilo que você sente pelas pessoas, pelo mundo. Explica pra gente o que é a paixão pra você em todos os níveis.
José Luiz Pasin – A paixão é um estado de espírito. Quando você é tomado por ela, tudo em você se modifica. Quando você está realmente apaixonado por uma causa, uma pessoa, você tem um brilho diferente no olhar, você tem um brilho na pele, você tem uma luz que se irradia. As pessoas que convivem com você percebem que você está em estado diferente. A paixão é um estado de efervescência, é como se algo dentro de você estivesse em ebulição. Quando se trata de paixão afetiva, por outra pessoa, isto transcende, irradia. Eu diria que isto contamina.
Entrevista concedida ao jornalista Joaquim Costa e originalmente publicada no jornal “A Semana”, número 11, que circulou entre 19 e 25 de dezembro de 1987.