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Ano 2 | Nº 20 | Agosto de 2008
Entrevista
José Luiz Pasin | extraído do jornal A Semana, de 1987
  A Semana – O professor José Luiz Pasin é figura exponencial no Vale do Paraíba, pela sua atividade cultural e ecológica. José Luiz, o que você identificaria como os principais problemas relativos à ecologia no Vale do Paraíba?

  José Luiz Pasin – O Vale do Paraíba é hoje a região que reúne o maior número de indústrias dentro da América Latina. Situado entre Rio e São Paulo, isto provoca problemas como o crescimento acelerado das nossas cidades. Por outro lado, o principal problema ambiental da região é o Rio Paraíba. Nós sabemos que as indústrias não poluem tanto o rio quanto as cidades. Segundo dados da Cetesb, 80% da poluição do Rio Paraíba se devem aos esgotos domésticos. A grande questão é como recuperar o Rio Paraíba, como torná-lo navegável novamente, inclusive, acredito que é viável a navegação no Paraíba através de lanchas e de balsas. Nós poderíamos ter uma linha regular de transportes de Jacareí até Cachoeira Paulista. É uma alternativa viável, como acontece em quase todos os países desenvolvidos do mundo. Por outro lado, poderia ser melhorado o nível de alimentação da população, porque a partir do momento em que sejam recuperadas as águas do Rio Paraíba nós teríamos uma maior variedade de peixes e isto representa um potencial alimentício muito alto. Outro aspecto realmente importante na região é o problema do ar, da qualidade do ar. O Vale do Paraíba é uma região cercada de montanhas, nós estamos entre duas grandes serras, que são as serras do Mantiqueira e do Mar. Os movimentos de ventos aqui é muito pouco. Se continuar a instalação de fábricas poluentes na região, daqui a vinte anos, no máximo, nós vamos ter problemas quanto à qualidade do ar na região. Isto é um problema a ser pensado principalmente pelas câmaras municipais e pelos prefeitos. Importante colocar quando nós fazemos uma análise do problema ambiental no Vale do Paraíba ou no Brasil é que não somos contra o processo de industrialização. Mas acredito que é racional que se discuta qual a indústria mais interessante para o município. É importante que os prefeitos saibam quais as indústrias que estão sendo banidas de outros municípios e querem se instalar na nossa região. Também é importante ter uma posição clara e definida contra as indústrias poluentes, já que, na realidade elas não beneficiam a região e aumentam os problemas.

  A Semana – E quanto às árvores...

  José Luiz Pasin – Em relação ao desafio ambiental em nossa região, eu acredito ser o problema em relação às árvores. Não sei se você sabe que as últimas reservas florestais do Estado estão no Vale do Paraíba, na Serra da Mantiqueira e nos contrafortes da Serra do Mar. Eu observo, por exemplo, que poucas cidades do Vale do Paraíba têm um índice de arborização satisfatória. Em Aparecida e Guaratinguetá, por exemplo, eu posso dizer que é quase nula a arborização. Nesta época de verão se observa as conseqüências nas cidades que estão localizadas dentro da Vale e que não têm arborização para melhorar não só a qualidade do ar que nós respiramos, equilibrar o nível de chuvas, mas sobretudo amenizar a temperatura nesta época de verão. Estes são os desafios básicos em relação ao Vale do Paraíba. Mas o desafio maior são as indústrias químicas que, indiscriminadamente, estão se instalando no Vale do Paraíba e que criarão problemas se as prefeituras, se as câmaras municipais não assumirem este desafio e não controlarem este crescimento industrial da região.

    A Semana – José Luiz, você abriu mão de uma propriedade supervalorizada para criar uma fundação cultural. Muita gente não entendeu. Como é que você explicaria o fato de abrir mão de uma propriedade em favor da cultura e da arte da região?

  José Luiz Pasin – Eu parto da idéia seguinte: entre as propostas que todos nós temos e os atos que nós praticamos deve haver um equilíbrio, sobretudo uma coerência. Eu tenho procurado ao longo da minha vida ser coerente. As coisas que eu penso, as coisas que eu digo, principalmente nas salas de aula, nos cursos que eu ministro, nas conferências, nas entrevistas e nas atitudes em relação à minha própria vida. Então eu parto da idéia de que a minha vida é dedicada aos movimentos culturais e aos movimentos ambientalistas. Realmente eu tenho uma propriedade rural altamente valorizada no município de Roseira. Mas há vinte anos eu venho trabalhando para preservar aquela área. A meta prioritária minha desde quando assumi aquela propriedade foi a de recuperar o espaço ambiental, que estava bastante degradado, a exemplo de quase todas as propriedades do Vale do Paraíba. O café derrubou toda a cobertura vegetal e estes sessenta anos de gado pisoteando os morros... nós temos uma paisagem desolada. É quase uma paisagem semi-árida. Por isso a preocupação de recuperar o espaço, exatamente tendo em vista o futuro da nossa região. As nossas cidades estão crescendo rapidamente. Está havendo uma conurbação das nossas cidades.


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Daqui a alguns anos, pelo menos de Lorena a São Paulo, nós seremos uma nova grande cidade e talvez, no futuro, nós sejamos um bairro do Rio de Janeiro e um bairro da Grande São Paulo e eu não vejo por parte dos órgãos públicos ou de instituições ou até mesmo de particulares nenhuma preocupação com as áreas verdes, com os espaços de lazer. Então eu pergunto: daqui a alguns anos onde as pessoas vão poder respirar um pouco, onde as pessoas vão poder passear num sábado à tarde, onde as crianças vão poder ter um contato com a natureza? O objetivo desta fundação cultural-ecológica que está sendo instalada na Fazenda Boa Vista, em Roseira Velha, é exatamente criar um espaço para transformar tudo aquilo num grande jardim botânico do Vale do Paraíba, porque a preocupação nossa é recuperar a paisagem botânica característica da nossa região. Por incrível que pareça a própria natureza vem se encarregando disto. Por outro lado, eu tenho um trabalho com escolas, denominado “Caminhadas Ecológicas”, que vai do pré-primário à universidade. Durante uma manhã, um número máximo de cinqüenta alunos recebe instruções sobre como conviver com a natureza, os animais, os insetos, os pássaros, as árvores. Eu acredito que a educação ambiental não deve ser assunto só de salas de aula; é fundamental que a escola assuma este desafio, mas sobretudo, despertando a sensibilidade que todos nós temos para este reencontro com a natureza. Eu acredito que a melhor maneira de devolver o homem à natureza é convidá-lo exatamente para um passeio pela natureza. Existe a parte cultural também. A parte antiga, as tulhas, a senzala, que fazem parte do acervo arquitetônico da fazenda de café, há quinze anos este acervo foi transformado numa instituição denominada “Pátio das Artes”, onde nós fazemos música, teatro, lançamento de livros, exposições, não só de artistas de São Paulo e do Rio de Janeiro, mas, sobretudo, um espaço aberto para o pessoal do Vale do Paraíba. Então, tudo isto congregado justificava a criação desta fundação. Levamos em consideração também que Roseira é um município novo e ainda não tem um espaço cultural. Dentro desta fundação nós temos também uma biblioteca valeparaibana, que é a maior biblioteca que existe no Brasil especializada em Vale do Paraíba. Nós temos tudo o que se publicou sobre o Vale do Paraíba, nas mais diferentes áreas e obras de todos os autores nascidos no Vale do Paraíba. É rara a cidade do Vale do Paraíba que não tenha o seu escritor, o seu poeta, o seu historiador. Eu acredito que isto justifica plenamente este trabalho. Eu não pensei no aspecto material, de abrir mão de um patrimônio bastante valorizado porque, na realidade, eu sempre vivi do meu trabalho, das minhas aulas, das minhas conferências, dos meus artigos. E não sei por que deveria explorar economicamente esta propriedade, se ela pode e cumpre muito mais uma função ecológica e uma função cultural.

    A Semana – Zé Luiz, você não é visto como um intelectual rançoso, antiquado. Mesmo sem você querer você é um superstar. E a sua vaidade, como é que fica nessa?

  José Luiz Pasin – Encaro com a maior naturalidade. Eu percebo que tudo que foi criado tem uma função definida e dentro desta função existe um tempo. Nós, seres humanos e racionais, nos preocupamos muito com o tempo cronológico. Mas muito mais que o tempo cronológico, existe, na natureza, um tempo biológico que determina a duração das coisas. Uma pedra pode viver alguns milhões de anos; alguns insetos vivem o suficiente para copular, reproduzir e morrem. O homem vive uma média máxima de noventa, cem anos. Então a gente vai percebendo que a morte é natural, é algo inerente à própria vida e faz parte do processo evolutivo. As pessoas temem a morte porque elas não vivem a vida. Se as pessoas vivessem mais a vida, se identificassem mais com a natureza, elas teriam menos medo da morte, encarariam a morte como uma passagem. E o que restaria depois da morte? Eu acredito que restam as nossas energias. Nós vivemos num espaço cósmico onde estas energias vão se diluindo. Acredito que é possível nós vivermos e nos renovarmos após as nossas mortes de formas diferentes. Nossas energias poderão ser captadas por uma pedra, por um rio, por um animal, uma árvore, um pássaro. De acordo com o nosso potencial energético, já que uns têm um potencial maior, outros têm um potencial menor. Nós fazemos parte de um sistema grandioso, absolutamente perfeito, em que as coisas se renovam. Todo o universo vive em movimento, nada está estático.


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