José Luiz Pasin – O Vale do Paraíba é hoje a região que reúne o maior número de indústrias dentro da América Latina. Situado entre Rio e São Paulo, isto provoca problemas como o crescimento acelerado das nossas cidades. Por outro lado, o principal problema ambiental da região é o Rio Paraíba. Nós sabemos que as indústrias não poluem tanto o rio quanto as cidades. Segundo dados da Cetesb, 80% da poluição do Rio Paraíba se devem aos esgotos domésticos. A grande questão é como recuperar o Rio Paraíba, como torná-lo navegável novamente, inclusive, acredito que é viável a navegação no Paraíba através de lanchas e de balsas. Nós poderíamos ter uma linha regular de transportes de Jacareí até Cachoeira Paulista. É uma alternativa viável, como acontece em quase todos os países desenvolvidos do mundo. Por outro lado, poderia ser melhorado o nível de alimentação da população, porque a partir do momento em que sejam recuperadas as águas do Rio Paraíba nós teríamos uma maior variedade de peixes e isto representa um potencial alimentício muito alto. Outro aspecto realmente importante na região é o problema do ar, da qualidade do ar. O Vale do Paraíba é uma região cercada de montanhas, nós estamos entre duas grandes serras, que são as serras do Mantiqueira e do Mar. Os movimentos de ventos aqui é muito pouco. Se continuar a instalação de fábricas poluentes na região, daqui a vinte anos, no máximo, nós vamos ter problemas quanto à qualidade do ar na região. Isto é um problema a ser pensado principalmente pelas câmaras municipais e pelos prefeitos. Importante colocar quando nós fazemos uma análise do problema ambiental no Vale do Paraíba ou no Brasil é que não somos contra o processo de industrialização. Mas acredito que é racional que se discuta qual a indústria mais interessante para o município. É importante que os prefeitos saibam quais as indústrias que estão sendo banidas de outros municípios e querem se instalar na nossa região. Também é importante ter uma posição clara e definida contra as indústrias poluentes, já que, na realidade elas não beneficiam a região e aumentam os problemas.
A Semana – E quanto às árvores...
José Luiz Pasin – Em relação ao desafio ambiental em nossa região, eu acredito ser o problema em relação às árvores. Não sei se você sabe que as últimas reservas florestais do Estado estão no Vale do Paraíba, na Serra da Mantiqueira e nos contrafortes da Serra do Mar. Eu observo, por exemplo, que poucas cidades do Vale do Paraíba têm um índice de arborização satisfatória. Em Aparecida e Guaratinguetá, por exemplo, eu posso dizer que é quase nula a arborização. Nesta época de verão se observa as conseqüências nas cidades que estão localizadas dentro da Vale e que não têm arborização para melhorar não só a qualidade do ar que nós respiramos, equilibrar o nível de chuvas, mas sobretudo amenizar a temperatura nesta época de verão. Estes são os desafios básicos em relação ao Vale do Paraíba. Mas o desafio maior são as indústrias químicas que, indiscriminadamente, estão se instalando no Vale do Paraíba e que criarão problemas se as prefeituras, se as câmaras municipais não assumirem este desafio e não controlarem este crescimento industrial da região.
A Semana –
José Luiz, você abriu mão de uma propriedade supervalorizada para criar uma fundação cultural. Muita gente não entendeu. Como é que você explicaria o fato de abrir mão de uma propriedade em favor da cultura e da arte da região?
José Luiz Pasin – Eu parto da idéia seguinte: entre as propostas que todos nós temos e os atos que nós praticamos deve haver um equilíbrio, sobretudo uma coerência. Eu tenho procurado ao longo da minha vida ser coerente. As coisas que eu penso, as coisas que eu digo, principalmente nas salas de aula, nos cursos que eu ministro, nas conferências, nas entrevistas e nas atitudes em relação à minha própria vida.
Então eu parto da idéia de que a minha vida é dedicada aos movimentos culturais e aos movimentos ambientalistas. Realmente eu tenho uma propriedade rural altamente valorizada no município de Roseira. Mas há vinte anos eu venho trabalhando para preservar aquela área. A meta prioritária minha desde quando assumi aquela propriedade foi a de recuperar o espaço ambiental, que estava bastante degradado, a exemplo de quase todas as propriedades do Vale do Paraíba. O café derrubou toda a cobertura vegetal e estes sessenta anos de gado pisoteando os morros... nós temos uma paisagem desolada. É quase uma paisagem semi-árida. Por isso a preocupação de recuperar o espaço, exatamente tendo em vista o futuro da nossa região. As nossas cidades estão crescendo rapidamente. Está havendo uma conurbação das nossas cidades.
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