Ano 2 | Nº 16 | Abril de 2008
Grafias
Contos imediatos | Wilson Gorj
  O pensador
  ENCONTRARAM-NO MORTO em frente a uma pequena fábrica de ladrilhos, cuja fachada é conhecida pela estátua de cimento que marca presença ao lado do portão de ferro. A escultura em questão é uma réplica aproximada d’O Pensador, famosa obra-prima do escultor Auguste Rodin.
  Tão conhecida quanto a estátua da referida fábrica, a vítima, encontrada na calçada, era um desses bêbados metidos a valentões cujos porres costumam terminar em bravatas estúpidas e brigas gratuitas.
  Este, por exemplo, tinha a louca mania de implicar com o dito Pensador.
  Embriagado, às vezes, detinha-se perante a estátua e, aos berros, endereçava-lhe os mais escabrosos insultos, os quais, por vezes, de tão inflamados, resultavam em sonoras e desvairadas bofetadas.
  Sonoras, desvairadas e, óbvio, inofensivas, pois sequer provocavam um mínimo arranhão na face rígida, sempre meditativa.
  Uma morte feia, a do bêbado. Ninguém sabe como se deu a desgraça. O que se sabe é que o lado esquerdo do rosto do bebum estava todo fraturado. Quem quer que o tenha agredido, deve tê-lo feito com extraordinária força e munido de algo muito duro e pesado.
  Além da violência deste caso, o que mais intriga é aquela mão direita ensangüentada.
  Não falo a do bêbado. Mas a da estátua.

  Sábado de Aleluia
   DIANTE DA PORTA de aço, a criançada não parava de gritar:
  — Queremos ba-la! Queremos ba-la!
  Às costas de um dos garotos, o boneco de Judas aguardava a hora de ser devidamente linchado, enforcado e queimado.
  “Queremos bala”, berravam a plenos pulmões.
De repente, a porta de aço sobe com força e rapidez.  Surge, então, a figura  do  proprietário  do  bar.  O rosto vermelho de raiva.
  Sua ira, porém, era anterior à algazarra dos moleques. Havia descoberto, há pouco, a traição da esposa e vingou-se dela dando-lhe um tiro certeiro e fatal. 
  O sangue ainda fervia-lhe nas veias. 
  — Cambada de arruaceiros! Não é bala que vocês querem?!  Então, tomem!!
  Tomem bala!!!

  Fora de Jogo
   CHEGAVA EM CASA de manhãzinha.  Às vezes exibindo um maço de dinheiro; outras, escondendo o pulso onde deveria estar o relógio, reincidente presente.
   Tinha sempre a mesma desculpa. Que ela tivesse um pouquinho de paciência com ele, pois largaria de vez a jogatina e arranjaria logo um emprego decente.
   Mas a mulher se cansou dessas falsas promessas e lhe fez um ultimato. Que escolhesse entre ela e o baralho.
Ele não deu importância. Achou que ela estava blefando, e por isso não pôs fim à sua jogatina noturna. 
   Estava errado, não era um blefe.
   De fato, ela o largou e foi viver com outro homem.
  Pela primeira vez na vida, ele soube o que era sentir-se uma carta descartada do baralho.

  Surpresa
   DURANTE O DIA TODO ninguém se manifestou em relação à data especial. Esposa, filhos, amigos, colegas de trabalho – todos pareciam ignorar seu aniversário. 
   Logo deduziu que eles estivessem fingindo esquecimento para mais tarde lhe armarem uma agradável surpresa.  
   Que assim fosse. Ele também haveria de fingir. Resolveu, portanto, entrar no jogo, agindo como se aquele dia fosse tão normal quanto os outros.
   Condescendente com a brincadeira, depois do expediente, em vez de ir direto para casa, demorou-se um pouco num barzinho, visando com isso dar-lhes tempo de aprontar a festinha surpresa...
   Duas horas mais tarde, pegou o caminho de volta.
   Da sua calçada, percebendo a escuridão suspeita da sala, entrou pelo portão fazendo-o ranger de propósito; desse modo, procurava avisá-los de sua chegada, a fim de que pudessem se preparar para recebê-lo “surpreendentemente”.
   Segurando a maçaneta, antes de girá-la e entrar, o aniversariante ensaiou uma expressão de visível surpresa, afinal não queria estragar a inocente armação. 
   Finalmente, entrou. E...
   Surpresa!
   Não havia ninguém na sala. Exceto a esposa que dormia no sofá. A TV ligada, ao menos, atenuava a indiferença da casa.

Wilson Gorj

Escritor, autor do livro Sem Contos Longos
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