Nova Fase | Ano 1 | Nº 12 | Dezembro de 2007
Grafias
Cocada | Nuno Marques
  Estávamos no início de nossas férias de verão. A bola pulava como pipoca no raspadão do bairro. Poucos conseguiam acalmá-la e tratá-la com carinho. Xingos e lamentos ecoavam o tempo todo entre os meninos da Rua de Baixo e os da Rua de Cima. Eu estava apático naquele dia. Nada dava certo, e quase tinha ido embora de raiva.

  Todo mundo sabe que, quando começamos o jogo e erramos as primeiras jogadas, o melhor a fazer é dar uma desculpa e pedir pra sair. Mas, como todo bom fominha, fiquei com a esperança da próxima jogada.

  Foi aí que tudo clareou. Dominei a bola no peito com habilidade. Ela parecia colar no meu corpo. Deixei-a cair, já driblando dois adversários. Ela deu de quicar e fugir do meu controle. Dei-lhe um tapa de leve, tocando-a mais à frente. Um garoto tentou me agarrar, mas deixei-o para trás apenas com uma gingada de corpo. Naquele tempo eu era um cisco e já carregava o diminutivo inho em meu nome. Liso que nem quiabo, safei-me de todos e fui em direção ao gol.
  
  O goleiro parecia assustado. Sabe quando não se tem muito o que fazer e a gente fica desesperado? Pois é, ele saiu todo estabanado, esperando pela humilhação inapelável. Lembrei da música do Jorge Benjor, Fio Maravilha, mas não tive tempo nem de cantarolá-la mentalmente.

  Fui atropelado por um caminhão que veio por trás arrasando o quarteirão inteiro. Não deu nem pra anotar a placa. Meu pé esquerdo virou e se prendeu entre o chão e o pé de um brutamontes. Caído, zonzo de dor, rolei pela terra, ficando besuntado pela poeira igual a um bife à milanesa. O pé inchava e aumentava de tamanho. O estrago parecia estar entre o vão dos dois dedos do lado interno do pé.

  Olhei pra meu agressor pronto pra lhe dar uma peitada, mas percebi que era o Cocada. Sabe aquele amigo que temos a certeza de que vamos crescer, ficar adultos e jamais esquecer ele? Pois é, assim era o Cocada que carregava esse apelido por gostar demais do doce homônimo.

  Bonachão, meio gordinho até, Cocada era incapaz de fazer mal a uma mosca. Mas, quando entrava em campo, era um perigo. Pereba das nossas peladas, vivia se trombando com um e outro e, na maioria das vezes, só jogava porque era o dono da bola. Era sempre o último a ser escolhido. Quando era eu que tirava o par ou ímpar, escolhia-o de primeira. Ele ficava todo feliz, e eu tinha a convicção de que não seria sua vítima.

  Porém, aquele dia não teve jeito. Ele me estendeu a mão para me amparar e me levou mancando pro gol do nosso time. Entendi seu gesto e fiquei no lugar do goleiro do nosso time até acabar a brincadeira.
   Já escurecia quando fomos para casa. Meu pé tinha dobrado de tamanho, estava enorme. E como doía...

  ― Tá doendo? ― perguntou-me com um sorriso manco.
  ― Não, Cocada, quase nada ― disfarçava a careta.

  Aquele machucado parecia diferente dos outros. Não pela dor, mas pelo local em que se localizava o ponto nevrálgico. Pensava que de nada adiantaria enfaixá-lo. Sentia fisgadas subirem pela canela.

  ― Quer que eu entre com você?
  ― Não, Cocada, pode ir. Brigadão pela força.
  ― A culpa foi minha...
  ― Foi um acidente, amigão.
  ― Tá bem... Amanhã, antes de levar a marmita, eu passo aqui.

  Cocada levava almoço para o seu irmão que trabalhava numa fábrica à beira da Dutra.

  ― Valeu!

  Hoje percebo que fui muito seco com ele.

  Minha mãe nem notou quando entrei. Tomei banho com dificuldade e fui pra cama sem jantar. Demorei pra pegar no sono. A cena da jogada vinha a todo o momento em minha mente. E se eu tivesse feito isso... E se eu tivesse feito aquilo... Devia ter saído antes...

  Todo meu lado esquerdo doía muito. Tinha vertigens e ânsias. Queria vomitar. Sonhei sonhos horríveis e acordei com mamãe passando as mãos pela minha cabeça. Eu suava frio.

  ― Que é que tá acontecendo, filho?
  ― Não sei, mãe. Dói tudo...
  ― Larguei a costura porque você gemia. Aconteceu alguma coisa? Você nem jantou..

  Levantei a colcha e mostrei pra ela meu pé. Ela ficou impressionada com o que viu. Até eu me assustei com o estado do coitadinho. Parecia um pão vermelho em alguns pontos, preto noutros e roxo na maior parte dele.

  ― Meu Deus! Vamos já pro Pronto-Socorro!

  Nessa hora comecei a chorar. Ela foi firme comigo e me fez engolir em seco.

  ― Homem que é homem não chora, menino!

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